Mostrar mensagens com a etiqueta Estações postais e marcofilia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Estações postais e marcofilia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 10 de julho de 2010

Marca obliteradora do Comando Militar do Aruângua

Luís Frazão no artigo "A marca postal do Comando Militar do Aruângua - Os primórdios do correio na Beira" (Boletim do Clube Filatélico de Portugal n. 414) demonstra como o carimbo mudo circular e com três barras foi utilizado como obliterador na correspondência entregue, para a transmissão, ao Comando de Aruângua, cuja instalação, datada 1887, progrediu até formar a vila de Beira, futura capital dos Territórios de Manica e Sofala governados,durante 50 anos a partir de 1892, pela Companhia de Moçambique.

Carimbo mudo circular com três barras atribuído ao Comando Militar de Aruângua

A prova, que levou Luís Brito Frazão a descartar a inicial hipótese que o carimbo pertencesse a Macequece, é uma carta destinada a Estremoz, franqueada com um selo de 50 réis obliterado com a marca muda. Na carta foi aposta, além da marca de trânsito de Chiloane de 7/6/1890, a marca do Comando Militar, identificando assim a sua origem postal.

O selo a seguir pode porém dalguma forma contradizer esta conclusão, apesar de não ser obviamente determinante.


A marca, em tinta violeta, da mesma cor do selo, é pouco visível, mas uma simples alteração, feita ao computador, da luminosidade e do contraste da imagem, permite identificar melhor quase todas as letras da legenda inscrita no elipse de linhas duplas: _RUAN_U_. Confrontando a marca (curva do elipse e simetria) com a que foi batida na carta que ilustra o artigo de Luís Frazão, não há qualquer dúvida, é a marca do Comando Militar de Aruângua.


Luís Frazão num outro interessante artigo ("Sobre a utilização postal de marcas administrativas no ultramar, em finais do século XIX" - Boletim do Clube Filatélico n. 408) propõe duas hipóteses a justificar a existência de selos postais obliterados com carimbos administrativos (militares, alfandegários ou da Administração Civil):

1 - Utilização sistemática durante um período limitado no tempo, enquanto se aguardava o envio da competente marca postal.
2 - Utilização pontual por motivos que se desconhecem, mas que terão a ver com a impossibilidade de utilizar uma marca postal.

Aparentemente está excluído o uso de selos postais para fins fiscais, pelo que se apresentam três opções que justificam a obliteração do selo aqui mostrado:

1 - O Comando militar ainda estava desprovido de carimbo postal tendo utilizado o carimbo administrativo até receber o carimbo mudo. 
2 -  Por motivo que desconhecemos, o carimbo administrativo foi ocasionalmente utilizado no lugar do carimbo mudo.
3 - O Comando Militar de Aruângua não dispunha de carimbo postal (carimbo mudo) e a carta para Estremoz foi enviada a partir de uma outra localidade.

A terceira hipótese obriga a uma analise mais atenta da carta em questão no que concerne a cor e a qualidade da tinta do carimbo mudo comparadas com as do carimbo militar.

_________

Nota: 
O artigo "A marca postal do Comando Militar do Aruângua - Os primórdios do correio na Beira"de Luís Frazão pode ser lido na versão online do Clube Filatélico de Portugal ao seguinte endereço (o acesso é porém restrito aos sócios do Clube): http://www.cfportugal.pt/index.php?option=com_content&view=category&id=30:boletim-no-414&Itemid=42&layout=default
O artigo "Sobre a utilização postal de marcas administrativas no ultramar, em finais do século XIX" do mesmo Autor é acessível ao endereço http://www.cfportugal.pt/index.php?option=com_content&view=category&id=24:boletim-no-408&Itemid=15&layout=default

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Miranda/Macaloge e Olivença/Lupilichi/Matchedje (Niassa)

Pequeno contributo ao artigo "República de Moçambique - As alterações toponímicas e os carimbos dos correios - XXI - Diversas mudanças toponímicas e muitas dúvidas" de Jorge Luís Fernandes.

O Decreto-Lei n. 10/76 de 13/3/1976 determinou a mudança de numerosos topónimos usado no período colonial, entre os quais os das localidades de MIRANDA (assim denominada nos meados dos anos '60) que passou a denominar-se MACALOGE (seu antigo nome), e OLIVENÇA que passou a ser chamada LUPILICHI, ambas localizadas na actual Província do Niassa.

A confirmar que a mudança de nome da ETP de Miranda, além da etiqueta de registo da carta que ilustra o artigo de Jorge Luís Fernandes, posso mostrar uma marca postal de Macaloge datada Fevereiro 1984.


Macaloge, sede do homónimo Posto Administrativo (ca. 6.700 habitantes em 2005), situa-se no Distrito de Sanga, a NW da Provincia de Niassa.

 Mapa da Província de Niassa com assinaladas Macaloge (vermelho) e Matchedje (verde)

Confrontando este mapa com o publicado juntamente ao artigo de J.L.Fernandes, nota-se como a posição geográfica de MATCHEDJE corresponda com boa aproximação à de Olivença. É bem provável portanto que Olivença tenha na realidade, e apesar do Decreto-Lei, assumido este novo topónimo e não Lupilichi. É também possível que Lupilichi seja uma deformação de Lipuche, cuja localização (mesma latitude mas próxima ao lago Niassa) pode ter dado origem ao equivoco.

_______________

Jorge Luís Fernandes, "República de Moçambique - As alterações toponímicas e os carimbos dos correios - XXI - Diversas mudanças toponímicas e muitas dúvidas" (A Filatelia Portuguesa, n. 106, Maio 2002)

Ministério da Administração Estatal, "Perfil do Distrito de Sanga, Província de Niassa" (2005)

domingo, 30 de maio de 2010

Ponta Vermelha - Carimbo não catalogado

Carimbo da estação postal da Ponta Vermelha (Lourenço Marques) não catalogado em "Marcofilia de Moçambique - 1875/1975" de Altino Silva Pinto.

Carimbo de duplo circulo completo com diâmetro exterior de 33 mm (estimado) e interior de 21 mm. Legenda superior "CORREIOS DE LOURENÇO MARQUES" e legenda inferior "PONTA VERMELHA" (ambas com 3 mm de altura) separadas por um ponto.
Ponte central formada por duas linhas distantes 8 mm e grupo datador constituído por dia (numerais) e mês (3 letras) separados por um ponto. Ano desconhecido.
O ano mais recente de uso do carimbo é 1903 ou posterior (1903 é o ano de emissão da segunda série D. Carlos-Mouchon).


A morfologia e o tipo de legenda do carimbo são parecidos ao carimbo do "CORREIOS DA ZAMBEZIA" (Tipo II - Subtipo A.4) usado em Chinde entre 1906 e 1912 (datas conhecidas).

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Movimento postal do distrito de Inhambane - 1911/1917


Fontes:
  • Relatório do Governador do Distrito de Inhambane de 1911/1912. Mapa comparativo do movimento postal e telegráfico e seu rendimento nas diferentes estações de Inhambane no anno de 1911/1912.
  • Relatório do Governador do Distrito de Inhambane de 1917 (edição da Universidade de Coimbra, 1920). Mapa do movimento postal no trienio de 1915-17.

domingo, 20 de setembro de 2009

Carimbo de barras datado. Um palpite: Vicente

Faltando, até hoje, uma qualquer peça que possa provar a origem do carimbo de barras datado, é inevitável ter que especular procurando umas confirmações indirectas.

A hipótese que o carimbo tenha sido utilizado em Vicente surge ao ler o Relatório de Juvenal Elvas, director dos correios de Lourenço Marques, sobre a sua viagem de inspecção à Zambézia nos finais de 1898.
Escreve Juvenal Elvas (pag. 106 do livro de Luís Frazão):
"Em Vicente fui informado de que é costume affixar a marca do dia nos sellos só quando se fecha a mala e não quando as correspondências entram na estação. D´este modo nunca há atrazos!"

Não há qualquer margem para dúvidas: em 1898 em Vicente havia uma estação postal dotada de um carimbo marca do dia. Resta saber qual era esta marca do dia e quando foi aberta a estação postal (ou posto de correio).
Verifica-se logo uma contradição: se de um lado a estação dos correios de Vicente aparece citada pela primeira vez em 1899 na tabela de permutação de malas na Zambézia publicada pela Direcção Geral dos Correios, do outro o relativo carimbo privativo não aparece na lista dos carimbos dessa época no livro de Altino Pinto "Marcofilia de Moçambique". Aliás o primeiro carimbo privativo de Vicente citado nesta obra é o hexagonal, com a data mais antiga de 1907. De 1899 a 1907 parece não se conhecer qualquer marca privativa, ou mesmo manuscrita, em clara contradição com quanto afirmado pelo Juvenal Elvas. Também não havia razão, dada a importância de Vicente na navegação do Zambeze, de encerrar a estação durante esses anos. É verdade também que o facto de não se conhecer o carimbo não significa que seja confirmada a sua inexistência, mas é assinalável a coincidência que há entre a última data conhecida do carimbo de barras datado e a primeira data conhecida do carimbo hexagonal de Vicente: 1907. A hipótese é que Vicente não tenha sido dotado de carimbo privativo (circular) mas sim do carimbo anónimo, pelo menos até receber o carimbo hexagonal.

Selo leiloado pelo Clube Filatélico de Portugal com carimbo de barra datado OUT 07

Este selo fornece mais uma possível sugestão da origem do carimbo. As palavras manuscritas são "Katandica" e "Baruè", o que não é impossível mas - infelizmente - o manuscrito aparenta ser muito duvidoso nos levando a continuar a perseguir a hipótese de Vicente.

Se o carimbo de barras foi utilizado em Vicente, estação postal aparentemente aberta em 1899, como explicar a existência de carimbos de barras datados a partir de 1888?

O envolvimento do porto fluvial de Vicente na transmissão de correspondência, além de ser óbvio por ser o local de permutação da correspondência que seguia a via terrestre de e para Quelimane, é confirmado em várias ocasiões, correlata sobretudo com Mopea, localidade e sede de uma Estação Postal localizada a cerca de 5 km:

 pag. 112 "As várias descrições feitas por portugueses e estrangeiros que de Quelimane se dirigiam ao Zambeze, começam sempre com um percurso de duração entre oito a onze dias subindo o Quaqua, dependendo do "volume de água que leva o rio", para chegar a Mopeia ao fim de 5/6 dias, e preparar a carga para o transporte por carregadores até Vicente, separada cinco quilómetros de Mopeia por um extenso areal (3/4 dias). Só então estavam reunidas as condições para a subida do Zambeze em almadias ou canoas, manejadas por remadores negros". - Luís Frazão - Não indica fontes e portanto o ano considerei como no meio entre a transcrição anterior de 1876 e a posterior de 1882.

Em 1882 (não se conhecem carimbos de barra tão antigos) o porto de Vicente não era porém ainda considerado um local de transição das malas de correio e de facto não constava no concurso de para o serviço de condução de malas de correio publicado no B.O. de 27/5/1882 (ver pag. 112):
"Em 1882, ainda era assim que se processava o transporte de malas do correio, conforme o mostra o anuncio publicado no B.O. n. 23, de 27 de Maio, onde é posto a concurso o serviço de condução de malas do correio entre as seguintes localidades: Distritos de Quelimane e Tete: Quelimane a Mopéa; Mopéa a Sena; Sena a Tete".

A importância de Vicente é contudo destinada a aumentar. Em 1889 a "African Lakes Corporation" já tinha aí estabelecido os seus depósitos e em 1896 era um porto regularmente escalado pelos vapores que navegavam no Zambeze. (ver pag. 120 e 125).

Em 1891, assim como referido no The Postal History of Nyassaland de Edward B. Proud (1997), no que se refere às  instruções recebida pelo primeiro postmaster em Chiromo, H.C. Marshal, Vicente aparece como local de destinação e eventual distribuição de correspondência, localidade já não acomunada a Mopea:
"The letters addressed to any place on the banks of the Shire, or to Vicente, Mopeia or Chinde, you will hand to the captain of the S.S. James Stevenson or Lady Nyassa, or the British steamers proceeding in the direction of the placed mentioned, and request him to deliver the letters for transmission to the local Portuguese postal authorities, or to the person to whom the letters are addressed." (ver pag. 88)

Em 1893 Vicente Vicente aparece como local de transição de correio, mesmo se ainda subordinado a Mopea.
"Fica estabelecido que malas do correio da Zambézia interior seguem d' aqui ao Chinde por mar e d´esse porto ao porto Vicente (...) Aberta a mala geral (em Chinde) e depois feita distribuição se fará imediatamente aviso de que as malas fecham pelo primeiro vapor a partir para o Vicente (...) Estas são malas extraordinárias, que devem fechar duas horas antes do navio partir, e ser dirigidas ao correio de Mopea e entregues ao chefe do posto fiscal de Vicente (...) Todas as diferentes malas para o interior da Zambézia são incluídas com a do Chinde para o correio de Mopea (...) As malas são entregues no porto Vicente ao chefe do posto fiscal ou ao chefe da estação telegráfica se não estiver qualquer pessoa enviada pelo capitão mór para as receber ..." (ver pag 131 e 132).

E finalmente em 1898 Juvenal Elvas, além do que foi citado no inicio desta mensagem, escreve: "(Os vapores) Servem não só os pontos extremos, um dos quais as vezes, é Chicuwawa, mas também Marromeu, Vicente (Mopea), Villa Bocage, etc. etc., levando malas do correio para estes pontos" (ver pag. 103)
Vicente parece finalmente ter-se tornado, postalmente e não só, mais importante de Mopêa, cuja estação postal foi provavelmente mandada encerrar não constando em 1899, ao contrário de Vicente, entre as estações do serviço de permutação de malas por via terrestre de Quelimane a Zumbo.

Resumindo:
  • Vicente desde 1891 estava certamente e directamente já envolvido na recepção e transmissão de malas de correio permutação de malas e eventualmente na distribuição de correspondência.
  • A importância de Vicente cresceu rapidamente desde o estabelecimento dos depósitos da African Lakes (1891) até substituir Mopea como estação postal principal (1898).
  • Em 1891 as malas vindas de Chiromo eram entregues em Vicente às autoridades postais portuguesas, mais a frente definidas como "chefe do posto fiscal ou ao chefe da estação telegráfica se não estiver qualquer pessoa enviada pelo capitão mór para as receber".
  • Não se conhecem marcas postais de Vicente se não a partir de 1907, data mais antiga conhecida do carimbo hexagonal, apesar de haver certeza que já em 1898 havia em Vicente uma estação postal e que esta estava dotada  de uma marca do dia.
  • Não sabendo se anteriormente a 1898 em Vicente estava ou não em uso um carimbo datado (e portanto se havia ou não um posto de correio ou alguém encarregado de tratar a correspondência local) é legitimo perguntar: se em Vicente seguramente a partir de 1891 já eram processadas as malas recebidas (havia actividade e autoridades postais), onde eram franqueadas e expedidas as cartas enviadas pelos residentes (em 1889 já havia os depósito da importante companhia de navegação Afrikan Lakes) deste porto? As levavam para Mopêa (5 km) e daí serem postas na mala para ser novamente transportada para Vicente? Existindo um encarregado dos correios (chefe do posto fiscal ou da estação telegráfica, ou qualquer outra pessoa indicada pelo capitão môr), este sem "ser" uma estação postal (por isso não dotado de carimbo privativo) não podia estar autorizado a vender selos e a obliterar a correspondência a ser expedida a partir de Vicente?
As, para mim, óbvias respostas a estas últimas perguntas, são mais um elemento que me leva a sugerir Vicente como localidade de origem do carimbo de barras datado.
A afirmação não é naturalmente definitiva e pode ser mudada ou adaptada se se encontrarem elementos contraditórios como, por exemplo, a descoberta de um carimbo de Vicente anterior a 1907 ou cartas que possam indubitavelmente descartar a hipótese formulada. Poderia ser o caso da carta cuja foto é publicada na pag. 145 do livro do Luís Frazão. A diferença de quase 4 meses entre a data de expedição (28/5/1896) e de trânsito de Quelimane (19/9/1896) torna muito difícil imaginar que a carta tenha saído de Vicente. Pode ter havido um erro de data no carimbo mudo, como sugerido por Frazão, mas esta seria mais uma especulação a somar a tantas outras. Talvez algo não esteja certo com esta carta ... mas esta é outra história.

sábado, 5 de setembro de 2009

A origem do carimbo de barras datado

Qual é a origem desta marca postal?


(Desculpem a qualidade da marca e do selo mas é a único que tenho)

Luís Frazão em "Contribuição para a História Potal do Baixo Zambeze" (Maio 2008 - Campo das Letras Editores) procura dar uma resposta à pergunta, corrigindo o proposto no artigo "Tentativa de identificação de uma marca muda da Zambézia" publicado no Jornal de Filatelia n. 59 de Março de 2000. No livro, e se entendi bem, Frazão descarta as hipóteses do o carimbo ter sido utilizado primeiramente em Sena e depois em Mutarara ou em Maquival.
Não sei quais as razões pela qual Frazão descartou estas hipóteses mas também teria estranhado que tanto em Sena como em Mutarara não estivesse em uso, na maior parte dos anos abrangidos pelo uso do carimbo de barras (conhecido batido em selos de 10/6/1888 a 31/10/1903), o carimbo privativo.
É de facto igualmente improvável que o carimbo pertencesse à estação postal de Maquival uma vez que aparece citada pela primeira vez em 1899 na tabela publicada pela Direcção dos Correios e Telégrafos da Zambézia e Chire no Boletim Oficial de Moçambique (BOM) com o título "Serviço combinado para a permutação da correspondência entre todos os correios da Zambézia, por via terrestre" (ver pag. 137) sem contar que Maquival pertencia ao 3° ramal (não publicado no livro) que juntava Quelimane a Pebane (rota estranha ao Rio Zambeze).

Em contrapartida Luís Frazão põe a hipótese a possibilidade de esta marca ser da Afrikan Lakes Ca, "aplicada a bordo ou nos entrepostos da companhia situados ao longo do rio e na correspondência avulsa que lhes era confiada" (ver pag. 146).
A sustento desta hipótese o autor fornece estes argumentos (ver pag. 146):

1 Em 1889 a Afrikan Lakes possuía os dois únicos vapores mercantes navegando no Zambeze e no Chire
2 O postmaster de Chiromo em 1891 determinava claramente que a entrega de cartas avulsas deveria ser feita aos comandantes dos vapores da Afrikan Lakes, que desembarcavam as cartas em Vicente/Mopeia para serem encaminhadas ao vice-cônsul em Quelimane.
3 Os correios de Quelimane não multavam as cartas que vinham com os selos já inutilizados, facto possível só com o conhecimento e assentimento prévio de Quelimane.
4 A última data de aplicação conhecida do carimbo mudo é de 31 de Outubro de 1903. Coincidentemente uma carta transportada pela Afrikan Lakes em Março 1904 já não apresenta esta marca e os selos da carta foram obliterados em Chinde em 7 Março 1904.

O argumento 1 está ao meu ver parcialmente correcto. A Afrikan Lakes possuía os dois únicos vapores (Lady Nyassa e John Moir) navegando no Zambeze e no Chire, mas em 1878! (ver pag. 119) Pode ser que a diferença esteja na tipo de vapores, porque se é verdade que os Lady Nyassa e John Moir eram os únicos vapores mercantes em 1889, assim como descrito por João Azevedo Coutinho (ver pag. 120), é também verdade que em 1889 eram operativos quatro vapores da Esquadrilha do Zambeze (ver pag. 121) muito provavelmente também autorizados desde então a transportar correspondência (em 1893 estavam certamente autorizados assim como se pode ler na carta do Governador do distrito da Zambézia dirigida ao Comandante militar do Chinde (ver pag. 131).

O argumento 2 aparece em The Postal History of Nyassaland de Edward B. Proud (1997): 
"There was of course no postal service in 1891 (na Africa Central Britanica), and letters were generally sent through the African Lakes Company to the vice-consul in Quelimane together with the money for postage stamps, and sent them home from the Portuguese Post Office. We commended to establish a postal service in July 1891" (ver pag. 87),
e é reforçado pelas instruções recebida pelo primeiro postmaster em Chiromo, H.C. Marshal, sempre publicadas no livro de Edward B. Proud: 
"The letters addressed to any place on the banks of the Shire, or to Vicente, Mopeia or Chinde, you will hand to the captain of the S.S. James Stevenson or Lady Nyassa, or the British steamers proceeding in the direction of the placed mentioned, and request him to deliver the letters for transmission to the local Portuguese postal authorities, or to the person to whom the letters are addressed." (ver pag. 88)
Porém:
"Letters were generally sent through the African Lakes Company to the vice-consul in Quelimane together with the money for postage stamps": ao vice-consul chegavam cartas não franqueadas e portanto não havia selos por obliterar. 
Além disso a correspondência que tinha que transitar por Quelimane a partir de Chiromo tinha que ser transportada em malas seladas: "Those which are intended for any part of Portuguese East Africa (except the Shire districts, Vicente, Mopeia or Chinde), that is say for Ibo, Moçambique, Quilimane, Inhambane, Lourenço Marques (Delagoa Bay) or any port or place in Portuguese East Africa, save those mentioned in bracket, you will desptch in a sealed mail-bag addressed to the Director de Correio, Quilimane" (ver pag. 88). Ao director dos correios de Quelimane era portanto enviada uma mala selada. Se tivéssemos de admitir que esta correspondência tinha selos obliterados com o carimbo de barras, deveríamos admitir que o carimbo estava na posse dos correios de Chiromo e que esta estação possuía e utilizava selos de Moçambique/Zambézia, o que parece muito pouco provável.
As cartas  destinadas a Vicente, Mopeia ou Chinde "will hand to the captain of the S.S. James Stevenson or Lady Nyassa, or the British steamers proceeding in the direction of the placed mentioned, and request him to deliver the letters for transmission to the local Portuguese postal authorities, or to the person to whom the letters are addressed" ou seja as cartas eram entregue a pessoal dos correios de Vicente, ou Mopeia ou Chinde e destinadas apenas para territórios da Zambézia,  como se fosse uma normal permutação de correspondência. A distribuição limitada à Zambézia está em contradição com carta publicada na pag. 145 destinada à Inglaterra.
O resto da correspondência saída de Chiromo era transportada em malas fechadas com destino aos postmasters de Zanzibar ou Durban "but the sealed mail-bag are only to be despatched by British steamer or gunboat". Esta correspondência portanto não transitava pelos correios de Moçambique mesmo se por alguma razão o transporte por ocean-going steamer em Chinde das malas destinadas a Zanzibar podia ser dificultoso. Nesse caso: "you may at your discretion address the bag to H.M. Vice-Consul, Quilimane, with a request that he will kindly forward the mail-bag by safe means to Zanzibar".

O argumento 3 está relacionado com a fotografia publicada na pag. 145. A carta franqueada com selos D.Luis I obliterados com o carimbo de barras com a data 28/5/1896, transitou de facto por Quelimane sem que lhe fosse contestada a legalidade da franquia.
Porém:
que a carta não fosse porteada só demonstra que os Correios de Quelimane conheciam a origem dos  selos e da obliteração. Não é uma prova que sustente a hipótese que o carimbo de barra pertencesse à Afrikan Lakes. Além disso a carta em questão apresenta um carimbo de trânsito de Quelimane de 19/9/1896, ou seja com uma data posterior de mais de 3 meses e meio da data de envio. Seria este um ponto a esclarecer melhor.

O argumento 4 deduz-se da carta cuja foto é publicada na pag. 143. A carta "é destinada a Quelimane e, se a inscrição "Via Chinde" tem bo contexto deste estudo um interesse certo, é no entanto a outra inscrição "C/ A L.a", e cuja leitura é "Care of African Lakes", que se torna fundamental" (pag. 142)
Porém:
infelizmente a ilustração é demasiado pequena para apreciar as partes manuscritas. O "C/ A L.a" ,pelo que se pode ver, é duvidoso. Parece haver mais uma letra entre "C/" e "A" e porque o "a" de "L.a" se o "L" estaria por "Lakes"? Se umas letras manuscritas fossem suficientes a atribuir o transporte a um vapor, não se tornaria mais provável atribuir o transporte ao vapor Zambeze cujo nome aparece escrito no verso por baixo dos selos? No relatório de Juvenal Elvas aparece o vapor Zambeze da Companhia da Zambézia como vapor operativo nos finais de 1903 (ver pag. 123).

À luz destas observações considero já pouco provável que o carimbo de barras tenha sido utilizado a bordo dos vapores da Afrikan Lakes ou que estivesse na posse desta companhia (num dos seus entrepostos). Além disso, a pouca probabilidade considero confirmada também pela morfologia e grupo datador do carimbo.

1 Um carimbo de barra pode ter só e uma única utilização plausível: a obliteração de selos. Não é plausível que uma companhia privada e ainda por cima estrangeira efectuasse um serviço próprio dos correios. É aceitável uma autorização para o transporte de correspondência, menos aceitável é uma autorização no tratamento da correspondência incluindo necessariamente, havendo um carimbo obliterador, a venda de selos.

2 Umas fotos tiradas do site www.leiloespdias.pt  mostram, mais claramente de quanto o possa fazer o meu selo, como é composta a data do carimbo.
 
 

Os meses estão escritos em português e não em inglês como era de esperar se o carimbo tivesse sido encomendado pela Afrikan Lakes ou pelos correios de Chiromo. O carimbo foi mandado fabricar e entregue a uma, por enquanto desconhecida, estação postal pelos correios de Moçambique/Zambezia e para efetcuar operações próprias de uma estação postal, por quanto provisoria possa ter sido.

Ao meu ver o do carimbo de barras continua sendo um mistério mas é provável que haja uma outra hipotese mais sustentável.

Altino Pinto - "Marcofilia de Moçambique"

 
 
Autor: Altino Silva Pinto
Título: Marcofilia de Moçambique - 1875/1975
Edição: Leilões P.Dias, LDA., Julho 2009
Páginas: 242

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Estações postais das Companhias de Moçambique e do Nyassa


Companhia de Moçambique

Das estações postais mais antigas não tenho dados sobre as suas datas de abertura. No anuário da Companhia de Moçambique de 1907 constam, além de Beira, as seguintes estações:

MACEQUECE
MANDIGOS
SPUNGABERA
CHIMOIO
SANÇA
CHEMBA
INHARUCA (Sena)
MARROMEU
NOVA FONTESVILA
BUSI
SOFALA
CHILOANE



No anuario de 1910 aparecem algumas novas estações, abertas evidentemente 1907 e 1909:

BANDULA
MASSANGENA
TAMBARA
CHIMANIMANI
MOCOQUE
PONTE DO PUNGUÉ
MAZAMBA
Sobre a abertura ou encerramento de outras estações, encontrei as seguintes duas informações:
  • Aviso de 11/6/1918 (BCT n. 161 de Jul 1918) informa que encerra MAZAMBA e abre NHAMINGA
  • OdS 222 de 6/12/1921 (BCT n. 209 de Dez 1921) diz ”... tendo sido autorizada a abertura da EP VILA GOUVEIA ...”

Companhia do Nyassa

As informações encontradas são:
  • Aviso de 8/2/1907 (BCT n. 8 de Fev. 1907) informa que foram abertas KUAMBA, UNANGO e M´TONIA
  • OdS 317 de 27/9/1907 (BCT n. 16 de Out. 1907) informa que forma ultimamente abertas MATIN, M´PEÇA, N´GOMANO e CHIFEMBE
  • OdS 169 de 1/4/1908 (BCT n. 22 de Abr. 1908) informa que se acham abertas MONTEPUEZ e MEDO “outrosim comunica que se acha aberta desde a ocupação dos terrirórios além Lugenda em 1901, na mesma Companhia do Nyassa, a EP de 2a FORTE D.CARLOS I
  • OdS 63 de 21/1/1909 (BCT n. 32 de Fev. 1909) informa que no dia 15/4/1908 foram abertas M´TESSA, MAMBE, LUATISE, CANDUR, MALMA e no dia 1/5/1908 MESA
  • OdS 74 de 26/01/1909 (BCT n. 32 de Fev. 1909) informa que desde Outubro se acha aberta MEKANHELLAS
  • Aviso de 12/7/1923 (BCT n. 231 de Julho 1923) informa que encerra METONIA e abre MANDIMBA
  • Portaria 1.786 (não conheço a data da portaria) (BOM n. 41 – I serie de 1932) – Abre VILA CABRAL
  • Portaria 1.787 (não conheço a data da portaria) (BOM n. 41 – I serie de 1932) – Abre MANIAMBA


Carimbo com erro no datador

Carimbo de registo de Moçambique do tipo VII-R.2 - MR.2 - DC (Altino Pinto, Marcofilia de Moçambique) datado 31 OUT 07, com o mês de 4 letras mas com a última letra errada.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Inharuca

Carta expedida de Inharuca (25 DEZ 1914) para India (chegada a Bombay em 13 FEV 1915)
Vendida no ebay por 442 USD

segunda-feira, 20 de julho de 2009