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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Sobrecarga "REPUBLICA" local falsa ou clandestina?

Em 1917 foi impressa localmente a sobrecarga "REPUBLICA" sobre 12 selos tipo "Mouchon" do distrito de Moçambique, restos das emissões de 1898/01 e 1903. O selo da taxa de 10 réis verde/verde amarelo não está catalogado como tendo sido sobrecarregado.


A incongruência é ainda maior observando o ano do carimbo: 1914, 3 anos antes da emissão oficial! A sobrecarga é portanto certamente falsa ... ou será clandestina?

O confronto com a sobrecarga, que acho genuína, de um outro selo  não mostra diferenças substanciais, tirando as que geralmente podem acontecer numa impressão tipográfica.


Determinar se a sobrecarga está por baixo ou por cima do carimbo é muito difícil mas, se tivesse que escolher entra as duas opções, diria que o carimbo está por cima da sobrecarga porque, observando o selo sob luz rasante, o brilho da tinta vermelha parece interromper-se nos poucos pontos onde carimbo e sobrecarga se sobrepõem. Se for assim é provável que a data do carimbo corresponda à data de aposição (não teria muito sentido, em anos diferentes, recuar o datador) o que leva a crer que a impressão possa ser de facto de 1914, ano de emissão, segundo os catálogos Simões e Ferreira e Afinsa, dos primeiros selos com este tipo de sobrecarga dos distritos de Inhambane, Lourenço Marques e Zambézia. É nesta ocasião que provavelmente alguém pensou bem de "emitir" por própria conta pelo menos uma folha (a impressão em exemplares soltos ou múltiplos é complicada e a taxa - 10 réis - era suficientemente baixa para utilizar uma inteira folha de 28 selos) obliterando-a logo a seguir, pois é muito provável que o carimbo seja de favor e que não se trate de um selo regularmente circulado.
O carimbo - infelizmente desconhece-se a localidade - é do subtipo M5.3 segundo a classificação de Altino Silva Pinto em "Marcofilia de Moçambique - 1875/1975". Na mesma obra Altino Pinto publica a lista das estações que usaram este carimbo. É possível que a lista não seja completa, mas é bastante indicativo que as estações representadas pertencem exclusivamente aos distritos de Lourenço Marques, Gaza, Inhambane e Tete. Não há nenhuma estação do distrito de Moçambique onde eventualmente o selo podia ter circulado (é sempre possível que se trate de um carimbo de trânsito ou de chegada mas seria acrescentar mais um pormenor sem prova aos muitos que já há), uma vez que somente em 1915 (Portaria 51 de 21/1/1915) foi autorizada a circulação em toda a colónia de qualquer selo, indistintamente da sua legenda. Este pormenor reforça a ideia que o carimbo seja de favor e que consequentemente a sobrecarga tenha sido impressa sem autorização com a chapa de impressão original.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Bilhetes Postais manipulados

Não é raro encontrar no mercado filatélico bilhetes postais antigos com a franquia adicional que se descolou ou foi retirada. Geralmente reconhecem-se pelas marcas parciais, faltando a parte que obliterava o selo, e pela insuficiência do valor do postal para pagar o porte correspondente. Conhecendo a data de expedição e o valor da franquia em falta é até possível identificar o selo ou os selos que estavam originariamente colados ao postal.

Este bilhete postal, por exemplo, podia ter sido uma boa peça se o coleccionador tivesse dado mais importância ao postal no seu todo e não apenas ao selo (se foi ele que tirou) e à etiqueta de registo que tentou de retirar.


Bilhete postal da taxa de 10 réis registado expedido de Lourenço Marques (5 MAR 10) para Port Elizabeth (8 MAR 10). Retirada (em baixo à esquerda) a franquia adicional de 50 r. correspondente ao prémio de registo. Marca de trânsito de Johannesburg (6 MAR 10), de transporte ferroviário MIDLAND T.P.O.5 (8 MAR 10) e de chegada REGISTERED-PORT ELIZABETH (8 MAR 10)

Peças deste tipo estão sujeitas a uma forte desvalorização, o que é uma boa ocasião para os falsários poderem adquirir por poucos euros e transforma-las em peças extraordinárias ... por vezes também exagerando.
Refiro-me em particular a um bilhete postal objecto de um artigo de Steve Washburne que pode ser lido ao endereço http://home.att.net/~s.s.washburne/UseAbroad.htm  (obrigado Fernando pela dica).



Washburne  estrutura o seu artigo de um modo um pouco esquisito. Bem sabendo que o postal foi manipulado, só no fim é que fornece os detalhes determinantes ("LORENÇO" sem "U" e tinta preta em vez de azul) descrevendo inicialmente umas muito improváveis explicações do que podia ter acontecido. Talvez esteja a gozar com os que se limitam a apreciar a espectacularidade das peças sem se preocupar com os detalhes da mesma.
Apesar dos erros grosseiros do falsário, indicados por Washburne, serem mais do que suficientes para reconhecer a manipulação, vale a pena observar outros detalhes do carimbo falso, por ser útil na analise de outras peças parecidas.


"R" diferentes, sobretudo o primeiro (marca original à esquerda)


Os circulos vermelhos tem o mesmo diâmetro (328 pixel); o falsário errou a curva no ponto assinalado pela seta


Não se explica porque nestas áreas não haja qualquer vestígio de tinta mesmo que, como na marca original, a cor não seja muito intensa


Não é uma prova definitiva, mas é habitual que haja uma interrupção das linhas do carimbo ao passar do selo ao suporte. Quando não há é possível que o selo foi sobreposto à marca

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Alteração da cor da tinta dos carimbos

Não é um truque mas uma alteração natural da tinta que de preta passa a ser vermelha nos selos. Provavelmente neste caso os elementos químicos da tinta do carimbo reagiram com os do papel dos selos.



Mais um exemplo no qual a alteração ocorreu também na parte batida no sobrescrito

Cor da tinta original


 
Cor da tinta alterada

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sobrecarga antonina de Inhambane

Portaria 164 de 28 de Junho 1895
"Tendo sido autorizado por Sua Excelência o Conselheiro Comissário Régio, uma sobrecarga nos selos postais, em virtude da proposta da comissão de festas de Santo António, em Moçambique, que assim pretende comemorar o Glorioso Thaumaturgo portuguez, e havendo-se-me comunicado que em Lourenço Marques a emissão dessa sobrecarga estava já realizada:
No uso da faculdade que me confere o decreto provincial nr.5 de 19 de Janeiro último e dos telegramas do mesmo Ex.mo Senhor de 18 e 25 do corrente mês que me autorizam a regular a referida emissão, hei por conveniente determinar o seguinte :
1º - A sobrecarga nos selos postais desta província autorizada por Sua Excelência o Conselheiro Comissário Régio, para comemorar o Centenário de Santo António, será a tinta vermelha nos selos de 5 reis e a tinta preta nos das restantes taxas, e constará da seguinte legenda impressa no sentido diagonal da esquerda para a direita e de baixo para cima "1195 CENTENÁRIO ANTONINO 1895".
2º - A sobrecarga a que esta portaria se refere será feita nos selos da emissão anterior à actual e até à importância de reis 21.000$000.
3º - Os selos com a sobrecarga comemorativa de que trata o número anterior, serão adoptados para a franquia postal unicamente nos distritos de Moçambique, Zambézia e Inhambane e durante os meses de Julho e Agosto, não sendo permitido durante esse período e nos referidos distritos, a franquia postal com selos d’outras emissões ou sobrecargas.
4º - No dia 1º de Setembro próximo futuro cessará a franquia postal com os selos da sobrecarga de que trata esta portaria, e restabelecida a franquia postal anterior.
As autoridades e mais pessoas a quem o conhecimento d’esta competir assim o tenham entendido e cumpram."

Assim como evidenciado por Carlos Kullberg no artigo «Sobrecargas antoninas de Moçambique», a partir do qual transcrevi a portaria, há umas evidentes contradições entre esta e as sobrecargas antoninas de Inhambane. Aparentemente os selos previstos para circularem neste distrito tinham que ser unicamente os com sobrecarga imprimida diagonalmente cuja circulação estava autorizada unicamente nos distritos, além de Inhambane, de Moçambique e Zambézia, não havendo qualquer referência a uma anterior emissão se não à de Lourenço Marques ("... havendo-se-me comunicado que em Lourenço Marques a emissão dessa sobrecarga estava já realizada ...).

Terá a comunicação erradamente omitido que já estava realizada também a sobrecarga de Inhambane? É um facto que, ao contrário do disposto pela portaria, também selos da série em circulação (D.Carlos I - Neto) foram objecto da sobrecarga assim como aconteceu com a sobrecarga de Lourenço Marques, e que a composição gráfica das sobrecargas de Lourenço Marques e de Inhambane é substancialmente igual, o que deixa pensar que possam ter sido aprontadas ao mesmo tempo.



Qualquer que seja o estatuto destas sobrecargas (autorizadas ou não), é notória a existência de uma sobrecarga de Inhambane diferente e, portanto supostamente falsa. É fácil de identificar observando a distância entre "Inhambane" e "MDCCCXCV", e não só.
Confrontando, por exemplo, as sobrecarga destes dois selos:




1 - distância entre a base de "Inhambane" e o topo de "MDCCCXCV": 1,5 mm (sobrecarga genuina) e cerca de 2,5 mm (sobrecarga falsa).
2 - altura geral da sobrecarga: 21 mm (genuina) e 22 mm (falsa)
3 - distância entre o serife do S e o vertice do A de S. ANTONIO levemente maior na sobrecarga falsa (é o ponto que está mais afastado do S)
4 - a recta tangente ao "C" de "CENTENARIO" corta o "S" de S. ANTONIO" mais centralmente de quanto o faça na sobrecarga falsa.
_______________

A sobrecarga de Inhambane, assim como as de Lourenço Marques e Moçambique é tipográfica. Para a sobrecarga de Moçambique recorreram a diferentes composições e fases de impressão para sobrecarregar os 28 selos da folha (ver artigo de Carlos Kullberg). Não sei qual foi a razão mas deve ser ou por não haver possibilidade de compor uma chapa das dimensões da folha ou por não ter um número suficiente de caracteres tipográfico para compor os 28 clichés duma só vez.

Terá acontecido o mesmo com as sobrecargas de Inhambane e Lourenço Marques?

O amigo Nuno ("filata" no fórum do http://www.selos-postais.com/) teve a gentileza de me enviar a imagem de uma magnifica peça da sua colecção: uma folha quase inteira da taxa de 300 r. de Inhambane com a sobrecarga do centenário. 



Possivelmente uma tira de 4 selos bordo inferior, peça igualmente da colecção do Nuno, é a parte que falta para completar a folha de 28 selos.



O conjunto das sobrecargas do bloco superior de 16 selos da folha parece estar  levemente desalinhado com o bloco inferior de 8 (e portanto de 12 se a folha estivesse completa), como é de esperar no caso de impressão em duas fase (16+12). A distância vertical entre as sobrecargas, porém, é sempre igual, (régua não em escala), o que pelo contrário faz pensar numa única fase de impressão.


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Coroa da Índia com denteado falso

Apesar de não ser um selo de Moçambique, achei oportuno comentar este selo (à venda no próximo leilão do Clube Filatélico de Portugal de onde retirei a imagem) por se tratar de um tipo de falsificação à qual pode estar sujeito um qualquer selo. O selo é descrito como tendo o denteado deslocado (mas seria melhor defini-lo "denteado duplo", se fosse original).



Qual era o estado original do denteado horizontal inferior não é dado saber. Podia estar nessas condições - e o falsário achou melhor dar valor a um selo estragado - ou o denteado estava intacto e o estrago foi propositadamente feito por ele. E com razão ... do ponto de vista dele e do seu parcial conhecimento das ferramentas de perfuração. É evidente que o falsário quis simular uma dupla batida do pente, com a segunda batida deslocada horizontalmente de alguns milímetros. Com o pente orientado como um E deitado o resultado de facto seria uma dupla perfuração bem distinta no lado vertical e uma perfuração danificada no lado inferior (os furos das duas batidas dificilmente coincidiriam).
O problema (e foi o pormenor que traiu o falsário) é que estes selos foram picotados com um perfurador de grade. A dupla batida ia afectar todos os lados do selo incluindo o lado superior que teria que se encontrar numa condição parecida (não idêntica sendo a perfuração irregular) à do lado inferior.

E se estivesse enganado e estes selos Coroa foram denteados com um perfurador de pente, por quanto pouco provável possa ser? Ou, confirmando o perfurador de grade e por quanto improvavel possa ser, se no lado superior os furos das duas batidas coincidiram perfeitamente? Nestes casos continua havendo algo que não quadra. Por quanto irregular possa ser a perfuração, uma dupla batida gera dois picotados identicos qualquer que seja a ferramenta usada. As duas perfurações verticais do lado direito do selo em questão teriam que ser perfeitamente iguais. Uma ampliação de uma parte do selo e os traços tangentes ao primeiro furo mostram as diferenças.



O denteado vertical interno é ao meu ver falso!

sábado, 5 de setembro de 2009

sexta-feira, 10 de julho de 2009

A sobrecarga antonina de L. Marques (2)

Um exemplo de sobrecarga falsa imediatamente identificável pelo ponto redondo e não quadrado do "L.".

A sobrecarga antonina de L. Marques (1)

Admitindo que os comprimentos e alturas das palavras e as distâncias entre estas possam ser critérios de identificação das sobrecargas falsas, as imagem mostram as medições que fiz numa sobrecarga que acho original. Medições horizontais Medições verticais

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Duplo denteado falso

Duplo denteado horizontal. Falso, despudoradamente falso! Vendido num leilão por 80 € (valor de base 15 €). Os selos foram picotados com um perfurador de pente. O denteado horizontal duplo é impossível.